CONSCIÊNCIA SOBERANA
Uma pesquisa feita nos Estados Unidos revelou que o número
de americanos moralmente adultos não ultrapassa a casa dos l5%. Bernard Shaw já
dizia que 5% da humanidade pensa; que 10% pensa que pensa, e que os restantes
85% preferem morrer a ter que pensar.
Humor à parte e descontada uma dose inevitável de exagero e
pessimismo, a verdade parece estar do lado desses números. A maturidade moral
não parece constituir o lado forte do homem moderno. Em que um casal europeu ou
americano difere de um casal indiano ou chinês em termos de consciência moral?
Ora, se a maturidade moral é fenômeno raro, entende-se porque o Papa Bento XVI
em sua encíclica moral (Veritatis
Splendor) resiste à ideia de fazer do planejamento familiar uma questão de
consciência. Se o número de casais moralmente adultos é tão reduzido como os
fatos estão a sugerir, então é realmente temerário confiar à consciência do
casal a responsabilidade exclusiva pelo que faz ou pretende fazer.
O tom das encíclicas papais dá a entender que elas se
destinam a pessoas que ainda necessitam do pulso firme e da ordem perentória de
um pai solícito, no caso o Papa. Os que não estão em condições de encontrar por
si mesmos a solução correta, fazem mal quando ignoram a voz do Papa e o
ensinamento da Igreja. Mas aqueles que se podem considerar de posse de uma
consciência adulta o suficiente para não precisar da ajuda de muletas morais,
não só podem, mas têm a obrigação de assumir a plena responsabilidade pelo que
fazem. Esta obrigação também se estende ao planejamento familiar.
Um axioma jurídico diz: “Abusus non tollit usum”. O abuso não justifica a abolição pura e
simples de uma prática. O fato de 85% dos casais (suponhamos que a porcentagem
corresponda à realidade) não possuírem sequer o mínimo de maturidade moral
requerido e que com justiça se pode esperar de uma pessoa culta e civilizada,
não dá à autoridade alguma o direito de impor a todos, sem distinção, a mesma
regra. Toda regra que não admite exceção é basicamente imoral e fonte potencial
de injustiças.
Estrangular a liberdade de espírito de um filho de Deus é
bem mais grave do que usar a pílula. Não é de leis e proibições que a
humanidade precisa mais, mas de homens e de mulheres capazes de transformar a
sua união em verdadeira ponte para o sempre e para o além! O que revela a
pessoa moralmente imatura é precisamente a sua incapacidade de se deixar
conduzir por sua própria consciência.
A visão que este papa tem da consciência é pessimista. Não
só desconfia da falta de consciência moral, como desconfia de forma sistemática
da consciência individual. Confia muito mais em sua própria infalibilidade como
papa do que na honestidade da consciência em si mesma. É a primeira vez na
história da Igreja que um papa trata a liberdade de consciência com tanta
reserva. Reforçar a Doutrina Moral não é a maneira mais inteligente de atacar o
problema da falta de moral. O que falta não são normas e leis, mas a vontade
política de pô-las em execução. Falta, além disso, consciência, isto é, uma
visão clara do sentido da existência humana. Uma situação desse tipo não se
corrige depreciando o papel da consciência moral. A consciência continua
soberana apesar das suspeitas com que a tratam os documentos oficiais da
Igreja. Virá o dia e a hora em que todos, sem exceção, seremos julgados por
ela.
Quando os compêndios de moral se referem à consciência
errônea estão fazendo confusão entre consciência e pseudoconsciência. A
consciência autêntica é interior, íntima e pessoal. A pseudoconsciência é uma
superestrutura de natureza psicossocial, em certo sentido exterior à pessoa.
Resulta de uma educação disciplinadora, destinada a fazer da criança um
elemento socialmente assimilável. Quanto mais injusta, despótica e opressora
for a sociedade que proporciona à criança este tipo de educação, tanto mais
tirânica será o seu superego. Basta seguir Freud, identificando como ele o fez,
superego com consciência moral para completar o estrago.
A desconfiança do papa é justificada. Só o alvo não é
aquele que menciona. Não é a consciência que não merece fé. É todo um sistema
pedagógico equivocado que está se desmoralizando por si mesmo. Na raiz dos
problemas sexuais de hoje não se encontra a falta de disciplina, mas a
incapacidade das pessoas de se disciplinarem por si mesmas. Tão prejudicial à
vida em sociedade é a falta de autoridade quanto na Igreja católica é o seu
excesso, já como mal crônico.
Autodisciplina significa ser capaz de responder de forma
plena por sua liberdade. Ela inclui como elemento essencial o respeito pela
liberdade do outro.
Padre Marcos Bach
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