O QUE NOS COMPETE COMO SERES HUMANOS
O discurso teológico tem contribuído muito para
distorcer o verdadeiro sentido da Vinda de Cristo à Terra dos Homens. Se Deus
quisesse tomar o lugar dos homens e ocupar um espaço histórico que eles não
souberam preencher, Deus não teria assumido a natureza humana e se comprometido
com a Evolução futura da humanidade do modo como o fez. Cristo veio inaugurar
uma nova forma de fazer história, e não apenas um novo capítulo de um processo
histórico em andamento. Passaram-se 2.000 anos e a humanidade ainda não se deu
conta de que o modo como egípcios, babilônios e romanos faziam história está
superado. Há um ponto a partir do qual não é mais permitido pensar em recorrer
às armas.
Este patamar a humanidade atingiu em 1945. A explosão da
primeira Bomba Atômica foi o sinal de que a guerra não é mais uma alternativa
política aceitável. Os gulags e campos de concentração nazistas não surgiram do
nada. Tornaram-se realidade concreta porque já faziam parte da consciência social
e moral de cristãos e judeus.
Se a Mensagem política
de Jesus tivesse sido compreendida, ninguém admitiria que fossem gastos
anualmente trilhões de dólares em armamentos.
Se a Mensagem moral
de Jesus tivesse sido compreendida, os homens se amariam infinitamente mais
uns aos outros.
Se a Mensagem religiosa
de Jesus fosse levada a sério, os homens teriam muito menos medo uns dos
outros.
Se a Mensagem espiritual
de Jesus fosse entendida como merece, daríamos muito mais valor e importância
ao que se passa no interior da almas e nos planos mais profundos das
consciências do que àquilo que acontece fora daí.
O essencial não cabe em estatísticas nem pode ser
transmitido por televisão. Do que de essencial se passa em seu interior até a
própria pessoa não consegue ter ideia. No entanto, é lá, no mais íntimo de sua
consciência, nos planos de natureza transpessoal,
que é decidido o destino não só de cada indivíduo em particular, mas do
universo inteiro.
Ninguém se torna mais sábio sem que o cosmos todo saia
daí melhor informado acerca da sua verdadeira natureza.
Teilhard de Chardin dizia que o homem é a flecha da
Evolução. Ao contrário de outras congêneres, o homem carrega em sua ponta a
vida, e não a morte. É na ponta da sua flecha que o arqueiro Zen concentra toda
a sua atenção. A flecha, diziam eles, sabe aonde ir e como fazê-lo. Basta
indicar-lhe o alvo e apontá-la na direção certa, tudo o mais ela fará por conta
e iniciativa própria.
Não há, ao que me parece, metáfora mais apropriada
para descrever a relação do observador com o objeto da sua pesquisa. E a
descreve de maneira sucinta e clara a atitude básica de cada pessoa para com a
sua própria consciência.
Toda a sabedoria do universo o Criador a condensou no
interior da consciência de cada ser humano. O cristianismo não é uma religião
de órfãos necessitados de um padrasto ou de menores incapazes de responder por
si mesmos. Um cristão adulto é aquele que não precisa mais de quem lhe ensine
como ser discípulo de Cristo. “A ninguém chameis de pai, porque um só é o vosso
Pai” (Mt 23,9).
A Igreja, cujas bases Cristo veio lançar, dispensa
por completo todas as formas de tutela moral e espiritual, política e
psicológica que nenhuma Igreja cristã até hoje conseguiu abolir.
O verdadeiro seguidor de Cristo não é um galé, um
pobre coitado que sem as bênçãos de sua Igreja não saberia o que fazer e como
escapar das chamas do inferno.
O cristão adulto não é aquele que usa a sua Igreja
como instrumento da sua própria salvação. A ideia de que a Igreja é um lugar de
refúgio para quem é incapaz de se defender por si mesmo, irritou não só a
Nietzsche. Está irritando um número cada vez maior de cristãos.
A plataforma política de Jesus se encontra
sintetizada no assim chamado Sermão da Montanha. Lá disse coisas tão
escandalosas como estas:
“Bem-aventurados os mansos porque eles possuirão a
terra” (Mt 5,5).
“Bem-aventurados os pobres” (Lc 6,20).
“Se não vos tornardes como as crianças não entrareis
no Reino dos Céus” (Mc 10,15).
“Ao que te bate numa face ofereça-lhe também a outra”
(Lc 6,29).
“Ao que quiser levar a tua capa deixe-lhe também a
tua túnica” (Lc 6,29).
Há uma forma de violência que gera vida. O que é o
nascimento de um novo ser humano senão um processo extremamente violento?
Retribuir o bem com o bem, já é difícil. Que esforço não é exigido de quem
adota como lema responder sempre ao mal com o bem? A mansidão cristã não tem
nada em comum com covardia ou medo de lutar.
Jesus, “manso e humilde de coração” (Mt 11,29), soube
ser violento, tanto em gestos como em palavras. Tanto Paulo (I Tim 2,2), como
Pedro (I Pe 3,4) nos convidam a viver uma vida mansa e tranquila.
São Francisco de Sales, homem colérico e impetuoso
por temperamento, passou à história como santo modelo de mansidão. A energia é
tanto mais poderosa quanto mais tranquila, serena e mansa for a pessoa.
Verdadeiramente sábio não é aquele que fala mais.
Verdadeiramente forte e poderoso não é aquele que se investe de um máximo de
autoridade e poder.
A nova civilização que se está esboçando é liderada
por pessoas que como Gandhi e Nelson Mandela acreditam que o futuro da
humanidade depende de atitudes e virtudes que de momento ainda são
identificadas com conceitos derrotistas como “entreguismo”, “pacifismo
irresponsável”, etc.
Todo aquele que se nega a abrir mão de privilégios e
de “direitos adquiridos” pode ser considerado inimigo do futuro da humanidade.
Isto vale também para a Igreja católica. Há nela gente demais com poder demais
e gente demais sem poder nenhum.
É evidente que Cristo não teve em mente uma situação
tão escancaradamente injusta quando confiou o destino da sua Igreja à direção
do Espírito Santo.
Padre Marcos Bach
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