REESTRUTURAÇÃO DO SISTEMA FAMILIAR
A dificuldade maior com que qualquer tentativa de
reestruturar as bases socioculturais do nosso sistema familiar tem que contar é
com a resistência que irá despertar no inconsciente coletivo das pessoas,
incluídos na lista os próprios jovens.
Já são tantas as gerações convictas de que a tradicional
distribuição de papéis entre homens e mulheres possui valor definitivo e
irreformável, que é praticamente impossível alcançar mudança de atitudes no
curto espaço de alguns séculos. Mas é também verdade que “água mole em pedra
dura, tanto bate até que fura”. Com muita paciência histórica será possível
preparar o advento de uma nova geração de jovens capazes e dispostos a pôr em
prática o que de momento não passa de sonho utópico. Faz parte da Esperança
Cristã a crença de que a verdadeira história da humanidade nem sequer começou.
Nossas melhores famílias obedecem a critérios culturais e
éticos que só com muita boa vontade podem ser definidos como civilizados ou
cristãos! Já se passaram 2.000 anos desde o dia em que Jesus dispensou a mulher
da submissão ao homem. No programa sociocultural de Jesus não há lugar para
posturas discriminatórias. Mas entre o que Jesus pregou e o que seus homens
fizeram em seu nome existe um fosso. E este fosso passou a fazer parte do
inconsciente coletivo do povo cristão. Enquanto os homens exploram a sua
pretensa superioridade, as mulheres procuram tirar proveito da sua pretensa
fraqueza.
A criança aprende a amar recebendo amor. Aos poucos percebe
que “há mais prazer em dar do que em receber”. A maturidade afetiva atingem-na
os que sabem dar e receber com a mesma liberdade interior.
A respiração se torna perfeita quando já não é mais preciso
pensar nela e preocupar-se com ela. O amor dispensa qualquer esforço. O amor se
derrama em nossa alma com a mesma espontaneidade com que o ar flui através do
nosso sistema respiratório. No começo e em seu estágio infantil o amor consiste
em dar e receber. Mas em seus estágios mais evoluídos o amor deixa a fase do
intercâmbio e passa para a da comunhão, onde dar e receber são a mesma coisa e
possuem a mesma importância.
Quando adulto o amor deixa de ser troca e se transforma em
partilha e comunhão de bens.
Ama como Jesus amou (e continua amando) aquele que
descobriu (e colocou em prática esta sua descoberta) que o amor é, acima de
tudo, compartilha. Lição que Ovídeo não conseguiu transmitir a seus fãs foi a
de que a arte de amar é em sua essência privilégio de quem sabe compartilhar e
repartir!
Quando se diz que todo diálogo amoroso é de natureza
dialética, queremos dar a entender com tal afirmação que uma relação amorosa
não é feita tão somente de consensos, mas também de dissensos e discordâncias.
Na linguagem do amor o não é tão importante quanto o sim.
O psicólogo Erich Fromm é de parecer que “a primeira
palavra do amor é não”. Mas a última palavra do amor jamais poderá ser um não.
Só pode ser um sim. Um Sim maiúsculo,
semelhante ao “Ita Pater”, com o qual
Jesus se despediu da cruz no momento final da sua vida terrena.
Entre o primeiro não do nosso tempo de criança e o Sim triunfal com que gostaríamos de
encerrar nossa existência terrena e a infinita variedade de nãos e de sins com
que somos forçados a nos defrontar a cada dia existe um Sim que é também um Não
que nos tratados de espiritualidade cristã leva o nome de “Opção Fundamental”. É dela que todas as opções menores tiram sua
validade.
Padre Marcos Bach
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